quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fippo III

    No primeiro dia ele só dormiu...
...o que facilitou a troca de curativos, no segundo ele acordou, confuso, fraco, faminto e bendito foi o mingau doce que entrava em colheradas fartas na sua boca. Mas ainda não tinha consciência de quem era, de onde estava e porque estava ali.

   No terceiro dia sentiu muita dor no corpo todo e uma febre o deixava num estado de quase inconsciência.
   No quarto dia a febre diminuiu, sentiu água fresca descer por sua garganta matando uma sede que o consumia.
   No quinto dia conseguiu entreabir os olhos e ver um homem velho vestido numa túnica solene examiná-lo.
   - Então, meu bom áugure? - perguntou Amaelia.
   - Ele vai viver - disse o áugure - Talvez fique rengueando do pé esquerdo por causa do ferimento mas nada que impeça o trabalho.
   Isso o tranquilizou, não morreria. Até conseguiu sonhar...

 ...sonhar com caminhos sagrados, que o levavam a outro lugar, outra vida, onde pudesse ser...como era aquela palavra? ...FELIZ. Bom, se conseguia se lembrar desta palavra poderia se lembrar de outras coisas.
   No sexto dia ele conseguiu abrir verdadeiramente os olhos e viu a cortina que servia de porta balançar levada por algum vento que viria do lado de fora. Ergueu a mão enfaixada e sentiu que formigava, coçava, sinal de que o ferimento estava cicatrizando, o pé esquerdo doía muito ainda, mas, menos do que se lembrava.
   Não tentou se levantar, sentia-se menos cansado e a confusão de sua mente começava a dar lugar às lembranças. Mas só queria dormir e todas as vezes que aquelas colheres levaram mingau ou pão molhado de leite à sua boca, as abençoava.
   No sétimo dia lembrou-se de que era um escravo, que era uma coisa que vivia para trabalhar para os outros e apenas isso, embora, no íntimo, lembrasse de seus pés esmagando uvas num lagar e não era porque fosse obrigado.
   Sim, era um escravo e como tal devia se comportar. Mas, mesmo um escravo precisa de descanso, fechou os olhos e ficou naquela cama limpa coberto com lençóis de lã.
   Na manhã chuvosa do oitavo dia levantou-se, viu que estava nu. Enrolou-se num lençol e mancou até a porta do quarto, puxou a cortina e viu a cozinha iluminada por lâmpadas de óleo e relâmpagos, mesmo sendo dia estava escuro. Ouviu o barulho da chuva e viu a menina da Pça. Do Mercado sentada à mesa e à sua frente, do outro lado da mesa estava uma mulher que achou especialmente bonita. Ambas sorriram para ele.


    - Você acordou! - disse Licinia - Olhe, fizemos uma túnica para você. - disse mostrando a túnica - Venha vesti-la.
   Era uma peça curta de lã sem tingir, mas que servia bem nele. Depois de se vestir ele se sentou aos pés de Licinia como um cachorrinho e recebeu num prato, frutas, feijões, um bom pedaço de carne, pão, e para beber, vinho com água. Quase chorou. Há quanto  tempo não comia carne? só quando fugia e caçava, mas era carne crua, sem gosto, e quando o capturavam e o levavam de volta para a casa de seu senhor, era a sua carne que ficava viva no açoite. E vinho! há quanto tempo não bebia vinho! lembrou-se de sua infância perdida, e quantas vezes teve de disputar com os outros escravos as frutas e restos de comida que as mulheres da casa e seu senhor jogavam para eles como se fossem galinhas ou porcos?
   - Como é o seu nome? - perguntou Licinia.- Você está me entendendo? como é o seu nome? olhe pra mim.
   Ele entendeu perfeitamente, apenas não se atrevia a erguer os olhos para a sua senhora temendo ser fustigado com aquele chicotinho que elas sempre usavam para controlar seus escravos.
   Mas não lembrava seu nome.
   - Está bem, vou chamar você de Filippo. - disse Licinia - Eu sou Licinia, você Filippo.
   Ele não entendeu.
   Ela bateu com o dedo no peito dele.
   - Você, Filippo.
   - Fippo. - disse ele.
   - Não, Filippo, você, Filippo.
   -  Fippo.
   - Ah, está bem! - disse ele com um sorriso divertido descobrindo nele um par de olhos azuis molhados e brilhantes.- Fippo!
   Amaelia se ergueu um pouco para poder ver se ele estava comendo. Ficou satisfeita, ele pegava a colher desajeitado, comia com vontade. Depois do susto inicial acabou se convencendo de que Licinia havia feito um ótimo negócio, ele sobreviveu e teria muitas coisas para fazer.

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