sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fippo

   Fippo foi um desses contos que foram amarrados para formar o livro:
   O que mais revoltava Licínia era ter de levantar de manhã e descer o Aventino para ir buscar água no chafariz perto do Circo Máximo. Tinha treze anos, uma garota alta e magra, pele branca, cabelos castanhos que no verão ganhava reflexos vermelhos encantadores. Era a mais nova de cinco filhos e quase morrera duas vezes a oito anos no inverno, de uma febre constante e dor na garganta que a deixava rouca. Depois disto nunca mais adoeceu e recebeu a incumbência de abastecer a casa com água potável. Eram várias subidas e descidas pelas ruas sinuosas do Aventino pois morava na parte de trás da colina, perto do muro de Roma. Às vezes, quando estava muito irritada, escalava o muro e ficava sentada lá em cima, olhando o Rio Tibre, sonhando em conhecer outras cidades, das quais ouvia maravilhas, como Atenas, Tebas, Luxor, das quais ouvia louvores de seu pai, Rufus Licínio, que por trabalhar na salga de carne nos depósitos que ficavam no Forum Boarium, agora chamado Praça do Mercado, conhecia vários comerciantes e estava sempre se informando sobre outras terras, outras cidades, outras culturas e até encomendava uns tecidos bonitos para sua esposa, Amaelia, fazer túnicas para elas.
   Roma era muito pequena para Licínia, num instante chegava à Ara Máxima e subia o Palatino, ficava olhando a casa renovada de Rômulus, imaginando como uma loba pode amar e cuidar de dois bebês humanos e como eles cresceram ali e no fim, Remus acabou sendo assassinado pelo irmão. Mas naquela manhã de inverno ela chorava de ódio de ter de deixar as cobertas de sua cama e sair na chuva com seu cântaro para abastecer a casa. Comia o pão feito pela mãe, molhado no leite ou lambuzado na manteiga, ou molhado no suco da carne de galinha que havia sobrado do jantar e se preparava para meter os pés na lama, nas ruas tristes do Aventino por trás. Seu sonho era morar no Palatino, lá havia casas bonitas, onde não entrava água quando chovia. A sua casa era como as outras, de madeira e barro, coberta de sapê, era grande, bem dividida, com lugares para os filhos dormirem separados de seus pais que ficavam em outro cômodo, e atrás havia uma área pequena com uma caverna escavada naturalmente na rocha, que nos primórdios de Roma havia sido morada de lobos, estava sempre limpa porque era lá onde a família se refugiava quando chovia muito forte. Como os irmãos e irmãs mais velhos de Licínia já haviam casado e ido morar pelas sete colinas, todo o serviço da casa cabia a ela e à Amaelia, daí a missão diária e matutina de irritar-se. Durante o verão era bom, a terra dos caminhos era batida e firme. Na primavera, nas margens destes caminhos nasciam flores pequenas que sempre chamavam sua atenção. No outono podia comer dos galhos carregados das fruteiras em frente das casas, eram maçãs, pêssegos, figos madurinhos que matavam sua fome, mas no inverno...no inverno as coisas se complicavam, os caminhos viravam atoleiros pegajosos onde ela ficava enfiada até os tornozelos, o esforço que fazia para andar quebrava as correias de suas sandálias e não raro, voltava para casa descalça. Mas havia pior: às vezes fazia um esforço tão grande que acabava caindo na lama, sujando-se completamente e derramando a água que havia pegado no chafariz, então voltava, chorando, uns riam dela, outros, cheios de dó, limpavam-na e emprestavam um cântaro que ela devolvia ao voltar.
   
   Foi por isso que Licínia pôs na cabeça que precisava de um escravo, afinal, todos em Roma tinham escravo, até seus vizinhos tinham e eram tão pobres quanto ela. Seus irmãos riram diante do pedido que ela fez ao pai. Rufus disse que não poderia sustentar um escravo, não tinham nem onde abrigá-lo.
- Um escravo custa dinheiro, minha filha - respondeu Amaelia pondo um ponto final na história - Não é só comprar, é alimentar, e o trabalho de seu pai não dá para isto. 

   Mas os vizinhos...e havia a caverna, o escravo poderia ficar lá! De qualquer jeito, não se falou mais sobre o assunto. Para piorar a situação o pai dela morreu de um mal súbito, estava trabalhando quando caiu desmaiado e morreu pouco depois. A vida, é claro, ficou pior, Licínia e sua mãe passaram a viver da caridade dos filhos casados que sempre mandavam alimentos para elas, e dos trabalhos de tear de Amaelia, eram tecidos bons, macios e que Licínia também fazia mas odiava mais do que ir buscar água no chafariz, pois ficava com sono a acabava adormecendo sobre o tear. 
   Naquele dia depois de abastecer a casa, Amaelia mandou a filha à Praça do Mercado comprar carne para o almoço e que podia ficar com o troco. O tempo começou a limpar apesar de ainda estar bem frio e o olho do sol apareceu timidamente aquecendo de leve as Sete Colinas. De roupa trocada ela desceu o Aventino e chegou à Praça do Mercado no sopé do Palatino e ia até o muro de madeira que protegia a cidade das invasões inimigas e fazia o possível contra as enchentes do Tibre. Os vendedores ofereciam suas mercadorias gritando, batendo em tachos de cobre como os fenícios havia ensinado desde o início dos tempos, para chamar a atenção dos fregueses.
   Viu tecidos bonitos:
    
   Frutas deliciosas: 
 
   Mas precisava comprar carne para sua mãe fazer o almoço:
   De repente quase cai ao ser atingida por algo pesado e fedido. Só não caiu porque foi amparada por dois homens. Agradeceu e virou-se para ver o que a atingiu. Um homem que devia ter sido um militar se curvou para ela, era alto, forte como um gladiador, usava o cabelo curto e barba aparada, uma túnica simples e sandálias, segurava um chicote com o qual fustigava uma figura suja que tremia de dor - e frio, pois usava apenas uma túnica curta e rasgada da qual não se sabia a cor de tão suja que estava - agachado no chão.
   - Lamento, moça, este infeliz nem para andar serve. - disse o homem com o chicote.
   Ela olhou para o escravo amontoado no chão, teve pena. Pensou: tinha economizado algumas moedas que seu pai lhe dava, poderia comprá-lo. E por quê não?
   - O senhor vende? - perguntou, séria.
   Ele a olhou dos pés à cabeça.
   - Vendo. - disse rápido temendo que a moça, pouco mais que uma criança mudasse de idéia.
   - Qual é o preço?
   O homem coçou a barba, aquele escravo lhe causava muitos problemas, qualquer dinheiro seria lucro.
   Vendo a hesitação do homem Licinia meteu a mão na bolsa e tirou o dinheiro que sua mãe lhe deu para comprar a carne e mostrou a ele.
   - É pouco, com esse dinheiro- puxou uma faca da bainha que trazia à cintura e vai cortar a mão do desgraça escravo.
   - Não! - gritou ela - Do que me vale um escravo maneta? espere, vou buscar mais dinheiro.
   - Até o meio dia eu espero.


Um comentário:

  1. Lindo texto!

    Rico, bem construído, muito bom!
    Enche a gente de vontade de saber onde vai parar.

    Gostei!

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