domingo, 28 de novembro de 2010

Fippo II

   Ela saiu correndo, encontrou uma amiga, pediu dinheiro emprestado, pagaria logo, precisava com urgência! Sávia não fez perguntas, passou o dinheiro. Ela voltou correndo e mostrou o dinheiro ao dono do escravo. O homem sorriu, pegou o dinheiro, depois lhe passou um pedaço de pergaminho que tirou de uma bolsa atada à cintura. Ela riu, quase chorando, finalmente tinha se livrado daquelas idas e vindas ao chafariz todos os dias. O homem fustigou novamente o escravo fazendo-o ficar de pé e indicou a moça com um gesto de cabeça.
  
   - Agora ela é a sua dona, seu cão gaulês. Vá com ela. - e saiu assobiando, contando suas moedas.
   Ela olhou para o homem se é que embaixo daquela crosta de sujeira havia um homem e diss:
   - Siga-me!
   Ele mancava, andava penosamente arrastando a perna esquerda, deixando um rastro de sangue na lama, mas não emitia nenhum som. Ela se sentia a criatura mais rica das Sete Colinas, tinha um escravo! poderia dormir até tarde, fazer o que quisesse como as meninas ricas que suas amigas apontavam na rua descrevendo o luxo no qual viviam, com seus passeios de liteira, suas idas às festas patrícias...
...as coisas caras que usavam, sedas, perfumes, a comida boa e farta sem fazer nenhum esforço!
   Menina linda e rica! festejada, amada! não que não fosse amada, mas era bem melhor ser amada rica do que pobre!
   Quando chegou em casa,, sua mãe estava na cozinha preparando feijões para o almoço.
   - Mamãe! veja! comprei um escravo!
   - O quê?! - perguntou Amaelia soltando a colher de pau na panela de barro fumegante repugnada com o cheiro insuportável que o pretenso escravo exalava - O que é isso, Licínia?
   - É o nosso escravo mamãe! - disse ela com um sorriso triunfante.
   -Mas eu mandei você comprar carne e não um...escravo! Como vamos alimentá-lo, Licínia? não temos nem para nós!
   Licínia desfez o sorriso e começou a tremer, não havia pensado nisso.
   - Além do mais este escravo está doente e veja: quanto piolho!
   - Mas ele trabalhará para nós...- tentou argumentar.
   - Se sobreviver ao inverno. - sentenciou Amaelia furiosa, com os olhos chispando - Agora, já que você o trouxe, trate de limpá-lo! - ergue as mãos para os céus que deviam estar, ainda, depois do teto da cabana - Oh, Venus e Vesta, o que foi que eu fiz para parir uma filha tão estúpida?
   - Venha. - disse Licícia olhando para o escravo, então percebeu seu estado lamentável e quase chorou, não de raiva, mas de pena, os piolhos andavam pela testa e pescoço dele que não fazia nenhum gesto para afastá-los.
   Não podia usar a água armazenada, teve de banhá-lo no Tibre, ainda gelada àquelas alturas de início da primavera, levou uma tesoura,uma navalha que fora de seu pai, uma toalha e um pedaço de sabão. Então o fez mergulhar nas águas esbranquiçadas do Tibre, levou a tarde toda para descobrir a pele branca e tatuada, embora as tatuagens fossem bem claras quase sumidas pela falta de renovação, os olhos eram azuis, os lábios um traço ressecado por causa da febre.

   Cortou os cabelos dele o mais curto que pode, mais apavorada do que enojada com a quantidade de piolhos, depois raspou os com a navalha, descobriu vários ferimentos naquele corpo macilento, e um especialmente grave na palma da mão direita, infeccionado e purulento, outro no pé esquerdo, perto do calcanhar onde havia um pedaço de madeira alojado. Nas costas, marcas de açoite, na cabeça diversas feridas ainda abertas e inflamadas pela ação dos parasitas e da sujeira. Ele tremia violentamente, mas seus olhos tinham uma expressão vazia, como se ele não estivesse ali e não se importasse com o que pudesse lhe acontecer. Licínia o enrolou na toalha e o levou para casa, impressionada com os ferimentos e quase chorando de dó.
   - Mamãe! - disse ela entrando na casa pela porta de trás.- Pronto, ele já está limpo...mas tem um pedaço de madeira enfiado no pé e uma ferida feia na mão. - empurrou-o delicadamente para que se sentasse num banco - Sente aí, vá...
   O pobre tremia, batendo os dentes.
   Amaelia surgiu à porta de seu quarto e viu um escravo sentado num banco à sua mesa. Cerrou os dentes para não gritar de ódio, mas, como era piedosa, aproximou-se.
   - Veja - disse Licínia mostrando a mão dele.
   - Uma queimadura - depois olhou o calcanhar inchado -...é, precisa tirar isso ou ele perde o pé.Você me entende? - perguntou a ele..
   Ele não desviou os olhos do infinito, daquele ponto perdido que a dor forçava a olhar.
   - Licínia, vá buscar a tesoura de costura, pinça, aquelas tiras de linho que você fez e que não servem para nada, a bacia com água quente, as ervas para unguento e o pó para ferimentos.
   Quando Amaelia puxou o pedaço de madeira do pé dele, ouviu um gemido abafado e viu lágrimas surgirem nos olhos dele e quando ela atou a ferida, ele desmaiou. Elas tiveram de levá-lo para um dos catres do quarto que Licínia ocupava. Com ele desmaiado Amaelia pode limpar o ferimentos da mão dele, drenar o pus e fazer um curativo com uma faixa de linho. As coxas dele estavam cheias de hematomas, e nos braços cortes superficiais em processo de inflamação. descobriu que precisava raspar os pelos dos genitais por causa dos piolhos e aproveitou que Licínia estava na cozinha preparando o unguento e o fez, raspou também as axilas. Extraiu a unha do dedão do pé direito, e de dois dedos da mão direita, umas das quais estava praticamente solta. Com a ajuda de Licínia passou-o para outro catre e recolheu os lençóis e folhas que serviam de colchão, jogando todo o lixo no quintal.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fippo

   Fippo foi um desses contos que foram amarrados para formar o livro:
   O que mais revoltava Licínia era ter de levantar de manhã e descer o Aventino para ir buscar água no chafariz perto do Circo Máximo. Tinha treze anos, uma garota alta e magra, pele branca, cabelos castanhos que no verão ganhava reflexos vermelhos encantadores. Era a mais nova de cinco filhos e quase morrera duas vezes a oito anos no inverno, de uma febre constante e dor na garganta que a deixava rouca. Depois disto nunca mais adoeceu e recebeu a incumbência de abastecer a casa com água potável. Eram várias subidas e descidas pelas ruas sinuosas do Aventino pois morava na parte de trás da colina, perto do muro de Roma. Às vezes, quando estava muito irritada, escalava o muro e ficava sentada lá em cima, olhando o Rio Tibre, sonhando em conhecer outras cidades, das quais ouvia maravilhas, como Atenas, Tebas, Luxor, das quais ouvia louvores de seu pai, Rufus Licínio, que por trabalhar na salga de carne nos depósitos que ficavam no Forum Boarium, agora chamado Praça do Mercado, conhecia vários comerciantes e estava sempre se informando sobre outras terras, outras cidades, outras culturas e até encomendava uns tecidos bonitos para sua esposa, Amaelia, fazer túnicas para elas.
   Roma era muito pequena para Licínia, num instante chegava à Ara Máxima e subia o Palatino, ficava olhando a casa renovada de Rômulus, imaginando como uma loba pode amar e cuidar de dois bebês humanos e como eles cresceram ali e no fim, Remus acabou sendo assassinado pelo irmão. Mas naquela manhã de inverno ela chorava de ódio de ter de deixar as cobertas de sua cama e sair na chuva com seu cântaro para abastecer a casa. Comia o pão feito pela mãe, molhado no leite ou lambuzado na manteiga, ou molhado no suco da carne de galinha que havia sobrado do jantar e se preparava para meter os pés na lama, nas ruas tristes do Aventino por trás. Seu sonho era morar no Palatino, lá havia casas bonitas, onde não entrava água quando chovia. A sua casa era como as outras, de madeira e barro, coberta de sapê, era grande, bem dividida, com lugares para os filhos dormirem separados de seus pais que ficavam em outro cômodo, e atrás havia uma área pequena com uma caverna escavada naturalmente na rocha, que nos primórdios de Roma havia sido morada de lobos, estava sempre limpa porque era lá onde a família se refugiava quando chovia muito forte. Como os irmãos e irmãs mais velhos de Licínia já haviam casado e ido morar pelas sete colinas, todo o serviço da casa cabia a ela e à Amaelia, daí a missão diária e matutina de irritar-se. Durante o verão era bom, a terra dos caminhos era batida e firme. Na primavera, nas margens destes caminhos nasciam flores pequenas que sempre chamavam sua atenção. No outono podia comer dos galhos carregados das fruteiras em frente das casas, eram maçãs, pêssegos, figos madurinhos que matavam sua fome, mas no inverno...no inverno as coisas se complicavam, os caminhos viravam atoleiros pegajosos onde ela ficava enfiada até os tornozelos, o esforço que fazia para andar quebrava as correias de suas sandálias e não raro, voltava para casa descalça. Mas havia pior: às vezes fazia um esforço tão grande que acabava caindo na lama, sujando-se completamente e derramando a água que havia pegado no chafariz, então voltava, chorando, uns riam dela, outros, cheios de dó, limpavam-na e emprestavam um cântaro que ela devolvia ao voltar.
   
   Foi por isso que Licínia pôs na cabeça que precisava de um escravo, afinal, todos em Roma tinham escravo, até seus vizinhos tinham e eram tão pobres quanto ela. Seus irmãos riram diante do pedido que ela fez ao pai. Rufus disse que não poderia sustentar um escravo, não tinham nem onde abrigá-lo.
- Um escravo custa dinheiro, minha filha - respondeu Amaelia pondo um ponto final na história - Não é só comprar, é alimentar, e o trabalho de seu pai não dá para isto. 

   Mas os vizinhos...e havia a caverna, o escravo poderia ficar lá! De qualquer jeito, não se falou mais sobre o assunto. Para piorar a situação o pai dela morreu de um mal súbito, estava trabalhando quando caiu desmaiado e morreu pouco depois. A vida, é claro, ficou pior, Licínia e sua mãe passaram a viver da caridade dos filhos casados que sempre mandavam alimentos para elas, e dos trabalhos de tear de Amaelia, eram tecidos bons, macios e que Licínia também fazia mas odiava mais do que ir buscar água no chafariz, pois ficava com sono a acabava adormecendo sobre o tear. 
   Naquele dia depois de abastecer a casa, Amaelia mandou a filha à Praça do Mercado comprar carne para o almoço e que podia ficar com o troco. O tempo começou a limpar apesar de ainda estar bem frio e o olho do sol apareceu timidamente aquecendo de leve as Sete Colinas. De roupa trocada ela desceu o Aventino e chegou à Praça do Mercado no sopé do Palatino e ia até o muro de madeira que protegia a cidade das invasões inimigas e fazia o possível contra as enchentes do Tibre. Os vendedores ofereciam suas mercadorias gritando, batendo em tachos de cobre como os fenícios havia ensinado desde o início dos tempos, para chamar a atenção dos fregueses.
   Viu tecidos bonitos:
    
   Frutas deliciosas: 
 
   Mas precisava comprar carne para sua mãe fazer o almoço:
   De repente quase cai ao ser atingida por algo pesado e fedido. Só não caiu porque foi amparada por dois homens. Agradeceu e virou-se para ver o que a atingiu. Um homem que devia ter sido um militar se curvou para ela, era alto, forte como um gladiador, usava o cabelo curto e barba aparada, uma túnica simples e sandálias, segurava um chicote com o qual fustigava uma figura suja que tremia de dor - e frio, pois usava apenas uma túnica curta e rasgada da qual não se sabia a cor de tão suja que estava - agachado no chão.
   - Lamento, moça, este infeliz nem para andar serve. - disse o homem com o chicote.
   Ela olhou para o escravo amontoado no chão, teve pena. Pensou: tinha economizado algumas moedas que seu pai lhe dava, poderia comprá-lo. E por quê não?
   - O senhor vende? - perguntou, séria.
   Ele a olhou dos pés à cabeça.
   - Vendo. - disse rápido temendo que a moça, pouco mais que uma criança mudasse de idéia.
   - Qual é o preço?
   O homem coçou a barba, aquele escravo lhe causava muitos problemas, qualquer dinheiro seria lucro.
   Vendo a hesitação do homem Licinia meteu a mão na bolsa e tirou o dinheiro que sua mãe lhe deu para comprar a carne e mostrou a ele.
   - É pouco, com esse dinheiro- puxou uma faca da bainha que trazia à cintura e vai cortar a mão do desgraça escravo.
   - Não! - gritou ela - Do que me vale um escravo maneta? espere, vou buscar mais dinheiro.
   - Até o meio dia eu espero.


Muito prazer, Hyacinthe!

   Hyacinthe foi lançado em 11 de outubro de 2010, eu nunca esquecerei esta data. Mas ficou um tempão na gaveta em forma de contos, eram os que eu mais gostava, que escaparam à fúria do fogo, pois eu costumava escrever, engavetar e depois de um certo tempo rasgar e incinerar. De alguns eu tirei apenas um personagem ou dois, outros eu adaptei.
  Na verdade havia escrito a história principal no ano l46 a.c, em Roma, durante a Segunda Guerra Púnica e dava mais enfoque às estratégias dos dois exércitos, a parte mais romântica, então,mostrando a um amigo virtual, ele disse:"Está legal, mas não seria melhor passar para o nosso tempo, seria mais fácil de fazer a história na mente." Pensei um pouco e acabei concordando, mas aí teria de transformar todo o pano de fundo, pensei em que poderia transformar o liceu de gladiadores, afinal eram esses combates que arrastavam multidões na Roma antiga. Estas atividades às vezes duravam dias seguidos.
   E só podia ser substituído por uma atividade apaixonante, que muitos transformam em religão, que arrasta milhões e milhões de pessoas tanto para dentro dos estádios como para diante de uma televisão: o futebol. O futebol é motivo de alegria, de delírio, mas também de desavenças e rivalidades, justamente o que eu estava procurando. Daí o liceu de gladiadores de Julius Messala, a Famiglia Gladiatores Bellona se transformar na Associação Esportiva Aventina, que tem como patronesse a deusa Bellona, irmã ou esposa de Marte, e trazê-la no escudo. Não encontrei nenhuma foto de Bellona para colocar aqui mas garanto que ela não é nada bonita, parece muito com Medusa, mas tem corpo de gente e é mais agressiva, tem cor de bronze, por isso as cores da Aventina são prata e bronze.

   Outra coisa bem marcante foram meus estudos sobre o Departamento Lebensborn durante a Segunda Guerra Mundial, um assunto bem difícil porque até os aliados, que venceram a guerra não gostam de falar. Este Departamento fazia parte de outro, de Povoação e Raça que pretendia fazer uma limpeza étnica no mundo a partir dos anos 30 finalizando-se nos anos 80. Felizmente, para nós, isto não deu certo, do conto que escrevi usando como motivo estes estudos tirei dois personagens, uma jornalista, Sully Cabrinni, e uma advogada, Octávia Cláudia de Angeles.